Quinta-feira 17 de abril de 2008
"Brasil e quase todos são muito pobres"
Precisamos definir o que é pobreza, posto que temos um conceito metafísico dela e do seu inverso, a riqueza, esquecendo que tanto pobreza quanto riqueza são construções culturais, que variam com o tempo, com a sociedade, com as diferenças ambientais e institucionais de cada local. O maior risco de ter uma definição única de riqueza e pobreza é começar a acreditar que existe também uma solução única para atacá-la. O pior dessa visão única é acabar atendendo os interesses de grupos particulares que apresentam as soluções para resolver o problema da riqueza a todos nós, cujos resultados são justamente os opostos. É muito difícil acreditar que os países ricos possuem uma concentração de riqueza pior que a do Brasil, mas isso é a mais pura verdade, basta ler o livro Wealth and Democracy de Kevin Philips e também os relatórios e estudos do Clube de Budapeste. Hoje os países ricos possuem uma concentração de riqueza tão ruim quanto na época da Maria Antonieta que foi guilhotinada com os filhos. Em países como os Estados Unidos, essa concentração de riqueza destruiu de uma vez por todas o bom senso dos governos, que toma decisões em detrimento da vontade da grande maioria e, pior, em prejuízo da grande maioria.
A concentração de riqueza era vista com péssimos olhos pelos criadores do liberalismo e foram eles que deram a formulação teórica do imposto sobre grandes fortunas utilizado em vários países ricos e que apesar disso não impediu a enorme concentração de riqueza neles. Mas a pobreza tem uma razão mais profunda, tem a ver com o excesso de individualismo que nos acostumamos e com as necessidades que foram criadas para todos nós, que sempre correm na frente das nossas conquistas materiais para nos tornar eternos compradores de bens e serviços. E eternamente infelizes, claro, para as campanhas publicitárias mostrarem como consumir deixa os modelos saudáveis, felizes e lindos.
Os economistas são fantásticos em relação às nossas necessidades. Eles classificaram os bens em dois tipos: bens econômicos, escassos, passíveis de apropriação e bens naturais, abundantes e não passíveis de apropriação. Como a economia é a ciência da escassez, para determinar preço, mercado, consumo ou apropriação, os bens da natureza foram excluídos da sua análise. Embora os bens da natureza sejam considerados pela teoria econômica abundantes, livres e gratuitos, nós sabemos que do ponto de vista jurídico isso é falso, como também sabemos do ponto de vista da física que esses bens são na verdade finitos e escassos. Por isso a teoria econômica é uma teoria falsa.
Voltando àquela classificação de bens econômicos que são escassos, único objeto de estudo da economia que trabalha como se a produção brotasse do nada num planeta inesgotável. Os economistas primeiro criaram o problema da escassez, que é atender as necessidades humanas da melhor forma possivel com bens escassos e depois chegaram a conclusão que o problema é insolúvel, porque as necessidades humanas são ilimitadas. Se os bens econômicos para atender necessidade humanas ilimitadas são escassos, o problema da escassez nunca será resolvido. É como um cachorro correndo atrás da própria cauda.
Seremos eternamente pobres, Brasil e até os países ricos, porque nunca estaremos saciados. Sim, o Brasil será pobre mesmo que fique rico, assim como os Estados Unidos é pobre mesmo sendo rico, pelo simples fato que nossas necessidades inventadas são ilimitadas. Para piorar, esse sistema concentra riqueza, destrói o emprego e a natureza e oprime as relações de trabalho e por isso nós estamos atendendo essa demanda ilimitada da pior forma possível e com um risco incrível, que é a nossa própria extinção.
Brasil só será um país rico quando mudar o seu enfoque econômico, remover a teoria econômica falsa da sua programação de política econômica e prestar atenção muito mais aos valores humanos, culturais e ambientais da sua sociedade, ao invés de acreditar em obras faraônicas, em consumo, em vendas e no falso emprego criado, totalmente dependente do ciclo da economia, que desaparecerá tão logo fique evidente que nada disso é sustentável.
Hugo Penteado é economista e autor do livro Eco-Economia, Uma Nova Abordagem (Ed. Lazuli, 2002.)















Vera Rosa Nunes | Itaju- SP | April 30, 2008, 12:15pm | #
Brilhante!
Em várias ocasiões pude observar a variação dos conceitos de riqueza e pobreza, e certamente, se considerarmos que o bem fundamental do ser humano é a vida,a teoria econômica deveria priorizar o meio ambiente como como bem finito mais precioso. Me parece que uma parte significativa dos habitantes do planeta já estão alertando para esse caminho, a teoria mudará, forçosamente.
Parabéns.
Vera Rosa- (Pedagoga)