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A curiosa contradição do governo brasileiro

O Brasil fez algo curioso... Usou um acordo de comércio internacional chamado TRIPS para tentar impedir que outros países sejam autorizados a produzir e exportar cachaça. Tudo bem. A cachaça é bacana, é uma delícia, é um tesouro nacional e está se tornando cada vez mais popular no exterior, especialmente na terra dos gringos.

É estranho... A cachaça não é uma invenção. Qualquer pessoa com cana de açúcar, em qualquer parte do mundo, pode produzí-la facilmente. Calma, já entendi. O Brasil quer proteger a cachaça, como os italianos querem proteger a pizza. É compreensível. E até louvável.

Mas tem uma contradição nesta história que não fecha.

O TRIPS é um acordo ratificado pelos países que fazem parte da Organização Mundial do Comércio que estabelece regras sobre propriedade intelectual (patentes e marcas registradas). Basicamente, o TRIPS determina quando é aceitável quebrar as regras internacionais do comércio, e apenas em casos de emergência nacional.

Há pouco tempo o Brasil ganhou as manchetes dos jornais nacionais e estrangeiros ao recorrer ao TRIPS para alegar seu direito de quebrar as patentes de remédios que laboratórios americanos criaram, para que o governo pudesse comprar versões genéricas, mais baratas, da Índia. É um duro golpe para quem gastou tanto tempo e dinheiro para inventar os medicamentos. Mas o Brasil alegou que é um país pobre, e que não tem condições financeiras de comprar os remédios originais (ao mesmo tempo em que investe menos na saúde pública do que em petróleo, no álcool e na contratação de novos funcionários públicos – mas aí já é outro assunto).

Agora o Brasil está usando o TRIPS de novo, desta vez não para dizer que é pobre, mas sim para dizer que a cachaça é uma invenção e que nenhum outro país, pobre ou não, deveria ter o direito de produzí-la. Isto ocorre no momento em que países pobres no Caribe, como a Jamaica, e na África estão aprendendo a fazer cachaça com a cana de açúcar que eles mesmos produzem e vendê-la no mercado mundial. São países bem mais pobres do que o Brasil, que, diga-se de passagem, é um dos países mais ricos do mundo.

Então, o Brasil disse que era pobre e precisava recorrer ao TRIPS para ir às compras na farmácia global. E agora usa o TRIPS para impedir que países pobres fabriquem cachaça com uma das poucas commodities que eles têm para comercializar e tentar sair da pobreza... E olha que as famílias produtoras de cana de açúcar no Brasil estão entre as mais ricas da América Latina.

É realmente curioso.  Você não acha?

 

 

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Comentários em destaque

Virasin Ohmni | Manaus | March 17, 2009, 11:31am | #

Comparar remédios que determinam se uma pessoa vai viver ou não com cachaça é meio complicado. Faltou você mencionar que muitos doentes nos Estados Unidos não tem acesso aos remédios e a tratamento, algo que no Brasil está bem melhor. O filme do Michal Moore (Sicko) sobre o sistema de saúde mostra como funciona o sistema no qual as empresas investem tantos bilhões em desenvolvimentos de remédios, para gerar mais bilhões ainda aos acionistas e quase nada à sociedade que segue sem tratamento médico e atendimento adequado no país mais rico do mundo (agora nem tanto, uma vez que seu modelo se provou totalmente fracassado).

Virasin Ohmni

Nelson | Porto Alegre | March 24, 2009, 3:49pm | #

Oi, Kevin! Na verdade, embora eu não esteja 100% a par do ocorrido, creio que o movimento do Brasil foi no sentido de impedir o uso da marca "Cachaça" seja empregado por outros países.

Nesse sentido, creio que o movimento é correto. Ou seja, é o movimento análogo ao realizado pela França ao defender que apenas os espumantes produzidos na região de Champagne possam usar essa alcunha ou ainda da Itália no que se refere a algumas de suas bebidas típicas. Enfim, todo mundo pode produzir cachaça, mas usar o nome cachaça só se for feita no Brasil.

Por fim, cachaça não é remédio, embora para muitos o seja, rsrsrsrs.

É isso!