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"Quebrar a patente foi essencial para o programa anti-Aids", diz ativista

O sociólogo Alexandre Grangeiro é um dos maiores defensores da quebra de patentes de remédios antivirais no Brasil. Pesquisador do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo, dirigiu o programa de Aids do governo federal de 2003 a 2004 e, no final de 2007, fundou o site De Olho nas Patentes. “É a indústria farmacêutica a grande beneficiária e incentivadora da atual forma de patentes aos medicamentos”. Segundo ele, o fato de o governo federal brasileiro ter quebrado a patente do Stocrin (medicamento produzido pelo laboratório Merck) no ano passado “foi essencial e estratégico para manter a política pública do Ministério da Saúde de acesso dos portadores da doença aos retrovirais”. Grangeiro falou ao Voz por telefone.

 

VOZ - O governo federal, em 2007, quebrou a patente do Stocrin, antiviral produzido pelo laboratório Merck, o que gerou uma série de polêmicas. Como o senhor se posicionou em relação a este assunto?

AG – Minha posição foi pela quebra da patente. Aliás, a posição de todos os envolvidos na luta contra o vírus HIV/Aids no Brasil, governo, organizações não governamentais, instituições do ensino público, entre outras. Essa medida foi necessária para manter a política pública do Ministério da Saúde de acesso dos portadores da doença aos retrovirais. Ela foi estratégica e essencial para o governo.

VOZ O que o senhor quer dizer com “estratégica e essencial para o governo”?

AG – O Efavirenz, composto do Stocrin, é a substância mais consumida entre os portadores da doença no Brasil. Os gastos do Ministério da Saúde com a sua compra começaram a comprometer o combate a outras doenças como a tuberculose e o câncer, por exemplo. A Merck, por sua vez, negou ao governo brasileiro um preço justo na venda do Stocrin. E o governo federal já gasta R$ 1 bilhão com a distribuição de remédios no combate ao HIV/ Aids.

VOZEm outras palavras, o senhor diz que o Merck cobrava preços abusivos?

AG – A empresa fez avaliações equivocadas em relação ao governo brasileiro e à política contra o HIV/Aids. Eles pensaram que não seríamos capazes de quebrar a patente do medicamento. Que apenas ameaçávamos e nada iria acontecer. Toda essa questão é muito objetiva. O Brasil é o segundo maior consumidor de retrovirais do mundo. Ficamos atrás apenas dos Estados Unidos. O retroviral é uma substância fundamental para o tratamento dessa enfermidade. E o Merck vendia o Stocrin a preços mais baixos no mercado internacional. Queríamos preços justos.Tratamento igualitário.

VOZHá nessa medida um viés ideológico contra as multinacionais, o capitalismo e as patentes?

AG – Não. Tudo foi feito dentro da legalidade. A lei de patentes prevê isso. É preciso lembrar, é a administração do Estado, devidamente constituído em cada país, quem concede a patente. Por isso, cabe ao Estado definir este assunto e seus desdobramentos. Essa medida foi circunstancial, uma efetiva resposta a um cenário prejudicial à manutenção do programa anti-Aids. A atitude teria sido demagógica se o Merck estivesse praticando uma conduta igualitária no preço da venda do medicamento ao Brasil e outras nações. Isso não acontecia.

VOZ Então, em sua avaliação a tendência será a quebra de patentes de outros medicamentos?

AG – É a indústria farmacêutica a grande beneficiária e incentivadora da atual forma de patentes de medicamentos. O que acontece hoje é um monopólio. Porém, é preciso lembrar que as fábricas não produzem todas as etapas de confecção de um medicamento. Elas compram componentes para a composição de um remédio em todos os lugares do mundo. Não há como não vazar informação nesta dinâmica. É preciso repensar a questão da patente entre os medicamentos. Na atual concepção, só os laboratórios farmacêuticos se beneficiam.

VOZQue alternativas o senhor poderia apontar?

AG – O pagamento por royalties seria uma saída. Hoje, devido à cadeia de produção do medicamento é fácil copiar uma fórmula. Portanto, quem desenvolvesse um componente específico seria seu detentor, por um período a definir, de suas propriedades. Aqueles interessados em produzir um medicamento a partir deste componente, pagariam um valor por sua aquisição, a quem o tivesse desenvolvido. Desta maneira, haveria a possibilidade de incentivar a competitividade. Quem tivesse mais competência em produzir o medicamento, poderia ofertá-lo. O México já trabalhou nesta perspectiva de ação. Há discussões desse nível da Organização Mundial de Saúde (OMS), assim como nas reuniões do tratado de Doha.

VOZA quebra de patentes, segundo o Merck, pode prejudicar a distribuição de medicamentos a países onde a situação é alarmante, como na África – com casos em que 40% da população adulta é portadora do HIV/Aids -, enquanto no Brasil esse índice está abaixo de 1%.

AG – A defesa do Merck não corresponde à verdade. O laboratório utiliza-se do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) para justificar suas ações. O IDH não é indicador adequado para ser utilizado. Ele encobre realidades gritantes. Ele não consegue mensurar a carga da doença. Ou seja, a capacidade de um governo investir no tratamento, a possibilidade do crescimento da doença, entre outros. Se o Brasil não tiver uma vigilância rigorosa no tratamento e prevenção da AIDS, rapidamente teremos patamares de infecção similares aos da África. O potencial de crescimento da AIDS, em qualquer sociedade, é explosivo. Não dá para medir sua grandeza.

VOZEntão, HIV/Aids é uma questão emergencial de saúde pública?

AG – Sim. A doença tem um ritmo de crescimento acelerado. É preciso realizar um constante trabalho de prevenção, informação e tratamento. O atual sistema de propriedade intelectual no mundo é fruto do Acordo TRIPS (1994) – sobre aspectos dos direitos de propriedade intelectual relacionados ao comércio. Ele é assinado pelos países membros da OMC. Passados mais de 10 anos, o resultado mais notório do sistema vigente é a maior concentração do conhecimento e da tecnologia nas grandes corporações dos países desenvolvidos. O impacto negativo provocado na saúde pública e na economia dos países em desenvolvimento revelou-se significativo.

VOZComo o senhor avalia o aparente controle dos índices desta doença no país?

AG – Pelo empenho de décadas das administrações federal e pela conscientização da população. O Brasil é pioneiro em políticas públicas de tratamento dos portadores do vírus. Essa precocidade fez com que, em 2000, pesquisas constatassem a estabilização do número de infectados. Atualmente, há o registro de 600 mil portadores do HIV/Aids no território federal.

VOZEm estatísticas, como esse cenário pode ser detalhado?

AG – A população sexualmente ativa, entre 15 e 49 anos, possui 600 mil portadores de HIV/Aids. Destes,180 mil recebem medicamentos para o tratamento. O restante não é contemplado por apresentar baixa carga viral da doença. Portanto, não necessita dos coquetéis. Outros, por decisão pessoal, apesar de diagnosticados, evitam o tratamento. Existem hoje no país, 211 mil mulheres infectadas (35% dos portadores) e 389 mil homens (65%).

VOZHá alguma mudança na reação e abordagem da doença entre homens e mulheres que diferenciem o comportamento atual do passado?

 

AG – Apesar de não haver cura para a doença, hoje existe tratamento disponível para esse mal. É possível ao infectado aumentar a qualidade e perspectiva de vida. Em média, são as mulheres que procuram mais rapidamente formas de tratamento para a doença. Isso acontece por dois motivos básicos: elas são diagnosticadas mais facilmente quando fazem o pré-natal e outras buscam apoio médico ao constatarem que seus parceiros apresentam sintomas da doença. Entretanto, tanto entre homens como em mulheres, 40% de todos os infectados procuram tardiamente o tratamento.

VOZMas o brasileiro modificou seu comportamento sexual no decorrer desses últimos anos?

AG – É mais fácil para um jovem que começa agora sua vida sexual cobrar o uso do preservativo na hora do ato. Para um adulto, que iniciou sua vida sexual em tempos onde não havia uma discussão tão constante sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) é mais difícil a negociação da colocação da camisinha.

VOZQuebrar a patente em si melhora alguma coisa na política do governo para o setor? Melhora a vida e a saúde dos portadores do vírus?

AG – Garante a manutenção do programa. Assegura as conquistas e possíveis expansões. É preciso lembrar, também, que medicamentos não refletem apenas a qualidade do tratamento do portador do HIV/Aids. Eles asseguram a redução da carga viral. Reduzem a incidência de novos casos.

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Comentários em destaque

Pedro Ramal | São Paulo | May 6, 2008, 10:38am | #

Há muitas doenças que tem "um ritmo de crescimento acelerado" no país. Por que não vamos quebrar os patentes em todos os medicamentos? Por que o governo não declarará todos medicamentos "de interesse público" hoje? São, ou não são? Parece tudo disso é para fazer política e nada mais.

Hugo Penteado | São Paulo | June 26, 2008, 9:26pm | #

A política brasileira é melhor que a dos Estados Unidos, onde vítimas da infecção da AIDS para terem acesso aos remédios precisam de ajuda de amigos. Eu li em artigos de Richard Tren, um dos lobbistas contra essa quebra de patentes, que a melhor forma de resolver o problema de falta de acesso aos remédios é enriquecer as pessoas. Pasmem. Quando eu o indaguei sobre isso, não recebi resposta alguma. Claro que idéias defensáveis, mesmo que polêmicas, não são devolvidas com o silêncio, a menos que sejam indefensáveis.

Quanto alguém interrompe o diálogo, é porque defende o indefensável, aí o debate fica difícil.

Alexandre Grangeiro está de parabéns.